Marcos Malamut
Espaços para a experiência que eles devem tornar possível.
Arquiteto-paisagista, professor e autor.
Há mais de trinta anos investigo como as pessoas percebem e vivem os espaços — e como transformar essa compreensão em decisões de projeto.
Minha atuação atravessa escalas e situações diferentes, da arquitetura e do paisagismo ao desenho urbano. O que permanece é a pergunta que antecede cada trabalho: o que este espaço precisa tornar possível para as pessoas que irão vivê-lo?
Um só olhar em diferentes escalas
A formulação do problema é o primeiro passo para a solução.
Cada situação tem uma configuração própria. O lugar, as pessoas, as necessidades e as circunstâncias se combinam de um modo que não se repete. É preciso reconhecer essa singularidade e ler, nas relações entre esses elementos, os conflitos e as convergências que dão forma ao problema e guiam sua solução.
A qualidade de uma solução não está em sua complexidade, mas na capacidade de reconhecer o contexto e reorganizá-lo de maneira simples e efetiva. Uma solução elegante equilibra interesses conflitantes, reorienta tensões e as transforma em possibilidades de projeto.
Estabelecer uma matriz — traçado urbano
O desenho se orienta pela construção de aproximações, continuidades, hierarquias, eixos visuais e centralidades, que organizam vias, lotes e áreas livres. Essas relações definem como o conjunto se apresenta, como é vivido e percorrido e como cada parte participa de uma unidade maior.
Uma estruturação territorial bem concebida cria identidade, relaciona o conjunto com a paisagem, torna-o reconhecível e extrai valor da própria implantação.
Estudo de implantação e traçado urbano. Recorte de projeto. [2023]
Integrar sistemas — arquitetura e paisagem
Arquitetura e paisagismo podem ser concebidos em conjunto desde a origem. Quando essa concepção acontece, a arquitetura se integra à paisagem, e a paisagem organiza a percepção da arquitetura. A ocupação do lote é pensada como um todo: terreno, espaço aberto, edificação e paisagem formam uma única situação, percebida com coerência por quem habita, visita ou vê da rua.
Os espaços exteriores ganham autonomia, identidade e vitalidade próprias. Eles estabelecem relações benéficas com a edificação e criam uma relação intencional entre interior, exterior, rua e paisagem. A arquitetura se amplia para além de seus limites construídos, e os espaços abertos passam a participar daquilo que o conjunto é e da maneira como ele é vivido.
A paisagem organiza a percepção da edificação, define seu caráter e estabelece a relação de chegada para quem se aproxima pela rua. Para quem habita ou visita, a arquitetura organiza a percepção da paisagem, enquadra as relações com o entorno e orienta a experiência do lugar.
Projeto residencial integrado. Ilustrações de projeto. [2024]
Arquitetura: Marcos Malamut e Yoanny Calvo
Terreno: 8000m² Construção: 1000m²
Transformar sob restrições — retrofit paisagístico
Mesmo quando a estrutura principal não pode ser alterada, um retrofit paisagístico pode transformar profundamente a maneira como um espaço é percebido e utilizado. Vegetação, mobiliário e organização das áreas coletivas redefinem as relações entre circulação e permanência, constroem convites, produzem escala, proteção e proximidade e ampliam as possibilidades de uso.
Quando concebidas como partes de um único sistema, essas decisões deixam de atuar como correções isoladas. Sua coordenação altera a leitura do conjunto e permite reforçar ou recriar uma identidade reconhecível, capaz de articular ambientes, usos e intervenções realizados em momentos diferentes.
Essa transformação precisa ser sustentada pelas condições reais de operação. A escolha das espécies, seu desenvolvimento e a frequência de manejo devem ser compatíveis com a luz, a disponibilidade de água e a capacidade operacional de cada lugar. Planejar essas condições juntamente com o efeito espacial pretendido torna a manutenção mais eficiente, reduz correções recorrentes e preserva, ao longo do tempo, a coerência e a identidade construídas pelo projeto.
Shopping RioMar - Recife [2025]
Experimentar e validar — CASACOR Bahia
Essa liberdade é acompanhada por prazos de obra muito reduzidos. A concepção precisa ser rapidamente convertida em decisões executáveis, com diferentes materiais, sistemas e equipes atuando de maneira coordenada. Espelhos d’água, piscina, pavimentos, iluminação, vegetação e peças de mobiliário foram efetivamente construídos ou instalados como partes de uma única operação. A experimentação torna-se, assim, inseparável da capacidade de realizar com agilidade sem perder a coerência do conjunto.
Mostras de arquitetura oferecem uma condição pouco frequente: desenvolver uma ideia com maior liberdade criativa, construí-la em escala real e verificar como ela é percebida e utilizada. Essa condição amplia as possibilidades de experimentação e permite tratar vegetação, água, pavimentos, iluminação, mobiliário e percurso como partes inseparáveis de uma mesma experiência.
Quando coordenado a partir de uma mesma intenção, o ambiente adquire identidade e força expressiva. A materialidade participa diretamente dessa construção: cada material é escolhido, posicionado e relacionado aos demais para que suas características visuais, táteis, técnicas e construtivas contribuam para a narrativa experiencial pretendida e para a coerência do conjunto. Ao mesmo tempo, deve ser apresentado em condições que tornem legíveis suas qualidades e possibilidades, reconhecendo e valorizando a contribuição de cada patrocinador.
Entre 2013 e 2018, tive quatro ambientes na CASACOR Bahia, em parceria com Fernando Rocha. Essa capacidade de concepção, integração e realização recebeu dois reconhecimentos: o prêmio de melhor espaço de uso público, em 2013, e o de melhor ambiente de toda a mostra, em 2018. No Jardim do Solar, de 2014, a unidade do projeto estendeu-se ao desenho da Poltrona Baluarte, criada especialmente para o ambiente em acrílico e vidro.
Projetar o que não se vê
Dispor coisas no espaço e estruturar espaço com coisas são operações diferentes.
Na primeira, os elementos chegam com suas próprias qualidades: espécies, materiais, funções, desempenhos e imagens. O vazio aparece como consequência daquilo que foi colocado. Na segunda, o espaço passa a ser a pergunta inicial. A matéria é escolhida e organizada para dar forma a um espaço que acolhe, conduz, aproxima, separa, revela ou protege.
A diferença é decisiva porque ninguém pode ocupar o espaço já ocupado por uma planta, um objeto ou uma parede. As pessoas só podem passar, parar, conversar, olhar e permanecer onde não há outra coisa. Se o projeto é para pessoas, seu objeto inevitável é o espaço que elas podem habitar.
Esse vazio não é ausência. É o campo das distâncias, dos movimentos, das relações e das possibilidades de uso. Projetá-lo significa decidir como os corpos se aproximam, o que pode ser percebido, onde se encontram abertura ou proteção e que relações podem ser estabelecidas com o entorno.
Essa inversão modifica a ordem das decisões. Em vez de começar pelas plantas, pelos materiais ou pelos objetos e esperar que produzam determinado efeito, começa-se pela experiência que se deseja tornar possível. Vegetação, arquitetura, superfícies, limites, mobiliário e luz são então coordenados como recursos de uma mesma intenção espacial.
Quando cada elemento precisa cumprir uma função dentro desse sistema, sua escolha exige precisão. A vegetação é matéria viva e temporal: cresce, transforma-se e responde às condições ambientais e às formas de manejo. A relação entre espécies, lugar, desenvolvimento, manutenção e ecossistema determina se a configuração pretendida poderá se sustentar ao longo do tempo. Efeito perceptivo, precisão técnica e responsabilidade ambiental não são camadas concorrentes, mas dimensões de uma mesma decisão.
Paisagem integrada. Revista Paisagismo & Jardinagem, 2013.
Livros
Uma visão própria do espaço e do projeto orientou mais de trinta anos de prática profissional e cerca de vinte anos de ensino. O conhecimento construído nesse percurso materializou-se em dois livros, que organizam e tornam transmissíveis os procedimentos e fundamentos dessa maneira de projetar.
Paisagismo: Projetando Espaços Livres (2011) apresenta um método direto de projeto. Orienta a leitura do lugar, a definição de intenções e a coordenação entre terreno, circulação, usos, vegetação e elementos construídos. É utilizado em cursos de arquitetura como material de referência.
Paisagismo Espaçoceptivo — percepção, corpo e a construção do lugar (2025) circunscreve e batiza essa maneira particular de projetar. É o livro fundacional da abordagem: apresenta uma forma própria de ver o espaço, organiza seus princípios e reúne as bases perceptivas e conceituais que a sustentam.
Ensino
Em um campo em acelerado desenvolvimento e profissionalização, compartilhar conhecimento é também participar ativamente de sua construção. Colocar em circulação uma visão projetual articulada amplia as referências disponíveis e contribui para o desenvolvimento da prática profissional.
Minha atuação apoia-se na transmissão de princípios que fundamentam critérios para reconhecer problemas, formular estratégias e tomar decisões com clareza. O foco é o desenvolvimento de uma inteligência projetual capaz de integrar e coordenar conhecimentos de diferentes campos em respostas coerentes com as particularidades de cada situação.
O centro ético da abordagem é reconhecer que cada decisão espacial interfere na experiência e na vida cotidiana das pessoas para as quais projetamos. Orientamos deslocamentos e permanências, favorecemos relações e modificamos a maneira como cada lugar é percebido e vivido. Essa interferência define também a responsabilidade do projeto.
Deslocar o ponto de partida dos elementos para a intenção espacial amplia a liberdade criativa e a capacidade de formular respostas autorais. Essa inversão também aumenta a liberdade na especificação das plantas e permite incorporar ajustes contextuais, técnicos e econômicos sem comprometer a integridade do projeto. Oferece, ainda, maior controle sobre o resultado espacial e seus efeitos na experiência das pessoas.
Atuo há 20 anos em cursos de pós-graduação e em formações próprias, realizadas em formatos digitais gravados e ao vivo, além de atividades presenciais. Um programa próprio de extensão universitária, atualmente em atividade, reúne essa visão, seus princípios e seus instrumentos em um percurso estruturado e continuado.
Palestras
As relações entre espaço, percepção, comportamento e projeto e suas implicações constituem o campo central do pensamento. A percepção é o ponto de partida para abordar a experiência, a história das ideias e as transformações culturais que alteram nossa maneira de perceber, ocupar e produzir os lugares.
Esse campo de investigação pode, assim, assumir diferentes recortes e graus de aprofundamento em encontros profissionais, acadêmicos, culturais e institucionais, preservando a consistência conceitual e a clareza da exposição.
Congresso Garden Fair - Holambra [2025]
Contato
Para contatos profissionais sobre projetos, consultorias, palestras, imprensa, ensino ou colaborações, utilize o formulário.